A liberação do uso de agrotóxicos coloca abelhas em risco e preocupa apicultores

Nos dias atuais, a preocupação com o meio ambiente tem crescido cada vez mais. Um assunto que está em pauta é a questão do número desenfreado de agrotóxicos, também conhecido como defensivos agrícolas, liberados em nosso País desde o início da gestão do atual governo com uma velocidade nunca vista em tempos anteriores, uma vez que tais aprovações demandam diversas etapas realizadas pelo Ministérios do Meio Ambiente, da Saúde e da Agricultura.

Até o término do mês de fevereiro, foram autorizados 57 novos produtos, ou seja, foi autorizado um produto por dia. Desses produtos, muitos já são proibidos nos Estados Unidos e Europa.

Uma das maiores preocupações é com o número crescente e alarmante de mortes de abelhas. Foram meio milhão de abelhas mortas em três meses nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Em testes realizados em laboratórios, foram identificados cerca de 80% de “defensivos” agrícolas nos exames das abelhas mortas no Rio Grande do Sul.

As abelhas são responsáveis pela polinização de um terço de todos os alimentos; caso sua extinção aconteça, haverá consequências drásticas, não só para os seres humanos, mas também para todo o ecossistema do planeta Terra.

Para a coordenadora dos cursos de Graduação a Distância e Pós-graduação em Apicultura e Meliponicultura da Unitau,  Profa. Dra. Lídia Maria Ruv Carelli Barreto, são diversos fatores que estão levando as abelhas à morte em grande escala. “Nós temos uma série de fatores nessa composição dos problemas que estão levando a esse extermínio das abelhas. Então, por exemplo: nós temos o uso incorreto de defensivos agrícolas, a expansão da área agrícola no país. Então, você tem o desmatamento, você tem uma perda natural, você já tem perda de espaço”, diz a professora. Para ela, a aplicação de agrotóxicos contrabandeados em plantações e lavouras e a pulverização aérea por aeronaves não credenciadas também são fatores que ajudam a agravar a situação.

Segundo pesquisadores, o principal causador de tal cenário é o contato desses insetos com os agrotóxicos que contêm inseticidas ativados em sua composição, fatais para eles. O Brasil tem o agronegócio como uma de suas bandeiras para geração de riquezas, tornando-se difícil conciliar as produções com a preservação desses animais. Para a coordenadora Lídia, é possível harmonizar essas duas coisas. “Há um levantamento mundial de produção de mel que já indicou que 70 a 80% do mel consumido no mundo já tem no mínimo resíduo de agroquímico. Até aos orgânicos, acontece de chegarem resíduos de agroquímico. O que a gente tenta fazer com o agronegócio extensivo é um convívio harmônico. O agronegócio profissional tem profissionais pilotando aeronaves de forma correta, cálculos de deriva, ou seja, de expansão daquela nuvem de agrotóxico dentro da lavoura, e não para o meio ambiente; existe uma dosagem certa dos agrotóxicos”, defende.

Embora essas mortes massivas de abelhas sejam um problema em todo o país, na região do Vale do Paraíba essa realidade é diferente. Por conta do baixo uso de defensivos agrícolas, a região tem 36% da reserva ambiental do Estado de São Paulo. “Nós temos ainda vegetação, pequenas cidades do Vale do Paraíba muito vocacionadas; a diminuição das áreas de pastagem para pecuária também cedeu espaço para a apicultura. O pasto sujo, que muita gente acha feio, para as abelhas é ótimo, pois aumenta sua produção. Então, para o Vale do Paraíba é fantástico. Nós não temos esse problema aqui”, afirma a especialista.

Em consequência do baixo uso de defensivos agrícolas na região do Vale do Paraíba, cresce a produção de mel. “Enquanto o Brasil está produzindo quinze, vinte quilos de mel por colmeia/ano, nós temos recorde de até cem quilos por colmeia/ano, aqui no Vale do Paraíba”, conta Carelli.

Há trinta anos, a Universidade de Taubaté vem trabalhando com os apicultores da região. Para o desenvolvimento deste trabalho, parceiros, como a empresa Suzano, antiga Fíbria, têm tido um papel significativo dentro deste projeto. Além de realizar toda a parte de consultoria de campo, a empresa, fundada em 1924, cedeu a abertura de sessões de áreas de eucalipto para a produção de mel. “Ao apicultor que não tinha um lugar, não tinha propriedade, não conseguia alugar uma propriedade para ter suas colmeias, a Suzano fez a sessão de área. Então, o apicultor leva as colmeias até os eucaliptos da Suzano, e produz mel”, revela a coordenadora. Ela ainda afirma que após a implantação desse projeto o incremento na produção de mel aumentou ainda mais. “Nós dizemos que foi um upgrade na apicultura do Vale a partir desse projeto”.

Em suma, o uso desenfreado de agrotóxicos tem relação direta com extinção das abelhas, as quais ocupam posição de extrema importância para a existência dos seres vivos, não só por produzirem mel, mas também no que se refere à produção de outros alimentos a partir da polinização. Tal fenômeno teria um impacto bastante negativo em nossa existência e na de todo o planeta.

 

Carolina Tavares
Assessoria de Comunicação EPTS